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mil e quinze

Livros, séries, filmes e muito mais ♥

27
Mai22

LIVROS: In Five Years, Rebecca Serle

Uma história de amizade inesperada

Vera

Depois de ler A Little Life, e de uma pequena pausa involuntária na leitura por coisas da vida, decidi que precisava de uma leitura mais leve e descontraída. Por isso, depois de passar os olhos pela minha lista de livros para ler, acabei por escolher In Five Years.

 

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A nossa protagonista, Dannie, é uma daquelas pessoas que gostam de ter a vida planeada e saber com o que podem contar, e é por isso que, quando numa entrevista de emprego a questionam sobre onde se vê dali a cinco anos, ela sabe exactamente como espera que a sua vida seja: casada com o seu actual namorado David, bem-sucedida na sua carreira e a viver numa casa com que os dois sempre sonharam. Nessa mesma noite, o sono transporta-a para Dezembro de 2025: exactamente cinco anos depois - onde Dannie se vê num apartamento numa zona de Nova Iorque com que nunca sonhou, com um homem desconhecido e um anel de noivado na sua mão bastante diferente do que conhece.

 

Achei que a premissa me prometia uma leitura leve, mas este livro na realidade não é nada do que parece - e digo isto num bom sentido. Aliás, não foi uma leitura tão leve quanto esperava e foi uma história mais triste do que qualquer um espera ao ler a sinopse. Nem sequer considero que tenha sido um romance - não foi, de facto. A sinopse engana um pouco, mas neste caso acho que era necessário fazê-lo para surpreender com um enredo que nos fala muito mais de amizade do que de amor.

 

«I've always been waiting, haven't I? For tragedy to show up once again on my doorstep. Evil that blindsides. And what is [...] if not that?»

 

Ao início estava a achar tudo um pouco cliché e a escrita não me apelou, mas depois começou a ficar mais interessante. Já li que muitas pessoas ficaram surpreendidas pelos plot twists no livro, mas eu acabei por adivinhar um pouco o que poderia estar para acontecer - a minha ideia era ainda mais drástica, mas metade dela foi exactamente o que aconteceu. Confesso que este livro tocou num tema que me é particularmente próximo e com o qual evito ao máximo lidar, e acho que se soubesse que ia incluí-lo, provavelmente não o teria lido.

 

Gostei da história, foi uma história bonita e triste ao mesmo tempo, mas não consigo considerar que seja propriamente uma obra prima. A leitura foi prazerosa, mas as personagens pareceram-me um pouco unidimensionais, sem grande profundidade e construção, e achei que a autora de um modo geral contou mais do que mostrou. Não achei a escrita nada de mais; acho que a melhor forma de descrever este livro é que é um livro com uma história pesada contada com uma escrita leve. Parte de mim sente que, se era para ser levada a isto, podia ter-me feito sentir mais - mas acho que também não há mal em não tê-lo feito.

 

«He is calm and collected, and I hate him, I want to ram him into the wall. I want to scream at him. I need someone to blame, someone to be responsible for all of this. Because who is? Fate? Is the hellscape we've found ourselves in the work of some form of divine intervention? What kind of monster has decided that this is the ending we deserve?»

 

Se é memorável? Acho que não muito. Mas vale a pena a leitura, sendo um livro que se lê bastante rápido. Li em inglês e acho que é daqueles que qualquer pessoa que não domine tanto a língua pode avançar para a leitura, sem grandes medos. É uma história bonita e no final deixa-nos com uma reflexão sobre o quanto podemos nós controlar da nossa vida - spoiler: absolutamente nada -, até mesmo quando sabemos aparentemente aquilo em que ela se vai tornar. Se sou uma Dannie na vida e se vou deixar de acreditar que consigo controlar o que o destino me reserva? Sim à primeira parte, não à segunda... Boas leituras!

 

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Quem conhece esta história? Partilhem as vossas opiniões!

23
Mai22

JOGOS: Stardew Valley

Um jogo descontraído e relaxante que é bem mais do que parece

Vera

Tenho para mim que Stardew Valley é um jogo perfeito para as pessoas que não são de jogos. Para as que só jogam The Sims uma vez por outra, para as que preferem jogos mais descontraídos. Claro que não é só para essas pessoas, mas acho um jogo particularmente bom para esse grupo.

 

É difícil falar sobre Stardew Valley porque o jogo é extremamente complexo e multifacetado. À primeira vista, parece um mero 8-bit de farming, mas na realidade é um jogo carregado de história e dos mais variados elementos de gameplay que se possam pensar. Vamos começar então pelo princípio?

 

Fonte

 

Em Stardew Valley desempenhamos o papel de uma personagem construída à nossa escolha, que acaba de se mudar para Pelican Town porque herdou uma pequena quinta do seu falecido avô. Assim, temos de começar a nossa vida do zero: sem dinheiro, com um pedaço de terreno que não tem absolutamente nada. Pelican Town conta com os locais mais variados, como praia, lagos e rios, minas, hospital, mercearia, bar, casas dos vizinhos... E por falar em vizinhos, podemos ir aumentando a relação que temos com eles, sendo que o jogo até permite que nos casemos com alguns deles e tenhamos filhos se assim quisermos. Mas o vale também conta com inúmeros locais secretos e desconhecidos, aos quais só desbloqueamos o acesso com o nosso progresso no jogo.

 

Algumas das áreas e competências que podemos desenvolver no jogo dizem respeito à quinta, tanto naquilo que semeamos e colhemos, como na possibilidade de termos animais de quinta e podermos recolher e transformar aquilo que eles produzem - com a ajuda de uma série de máquinas que podemos construir com base em receitas e elementos que nos vão sendo dados conforme vamos evoluindo em certos pontos do jogo. Ou seja, além do farming tem uma componente de crafting. Mas também tem uma de pesca, de foraging, combate, mining e para ser sincera nem sei se me estou a esquecer de alguma, de tantas coisas que tem! O jogo é muito bonito visualmente e dá-nos alguns momentos na história ainda mais bonitos - sejam eventos anuais na cidade ou cut scenes de momentos fulcrais no enredo ou com algumas das personagens da cidade. E a banda sonora, que muda conforme a estação do ano, é maravilhosa.

 

Fonte

 

A melhor forma que consigo arranjar para descrever este jogo é contar-vos isto: conheço o jogo há anos, comecei a jogá-lo de forma mais séria há uns meses; tenho visto quase todos os dias o kickthePJ a jogá-lo na Twitch e é nestas streams que todos os dias descubro coisas novas. Quando eu acho que o jogo já "acabou", que não tem mais para mostrar, descubro lá todos os dias sempre algo mais. O jogo parece não ter fim, e digo isto no melhor sentido possível. Consegue sempre surpreender com coisas novas, locais desconhecidos, dinâmicas por descobrir. Tem tanta, tanta coisa. A melhor forma de o descrever é assim: há sempre mais. Achas que já fizeste tudo o que o jogo te mostrou que havia para fazer, que estás quase a terminar aquilo que é o mais principal? Ele atira-te com locais e desafios completamente novos. Completas esses desafios e achas que agora sim, ficou por aqui? Não, há sempre mais! Este jogo é incrível, se eu pudesse dar 5 milhões de estrelas dava. Arrisco-me a dizer que é o melhor jogo de sempre, sem qualquer medo.

 

O melhor é que é um jogo que se pode ir jogando ao ritmo de cada um. Não é preciso entrar numa corrida contra o tempo para fazer tudo. Se há um ponto negativo, eu diria que se pode tornar overwhelming quando começamos a ter ideia da complexidade do jogo e da quantidade infinita de coisas a fazer e a atingir. (E o meu conselho é guiarmo-nos sempre por objectivos mais pequenos e curtos no tempo; as metas continuam lá para as atingirmos mesmo que seja com passos de bebé!). Também acho que há tanta, tanta coisa por descobrir que por vezes pode ser difícil atingir coisas das quais nem temos conhecimento se não soubermos muito sobre o jogo. O jogo vai dando pistas e dicas para imensos elementos, mas há outros que também ficam um pouco escondidos na sombra e dos quais é difícil ter conhecimento se, como eu por exemplo, não estivermos a ver outra pessoa jogar.

 

Eu sou adepta de tentarmos descobrir os jogos por nós próprios o máximo que conseguirmos, mas abro uma excepção pela primeira vez para o Stardew Valley porque acho que aqui o wiki pode ser mesmo o nosso melhor amigo. Embora aconselhe sempre o seu uso moderado, tem de haver um equilíbrio entre a experiência de descobrirmos o jogo por nós próprios e informarmo-nos sobre o que parece não existir informação dentro do jogo. Mas claro, isto vai da preferência de cada um. Um outro streamer que sigo, o Charlie, também começou a jogar Stardew Valley há pouco tempo e prefere não ver as streams do PJ para não ter muitos spoilers do jogo, por exemplo; já eu tenho a experiência de o jogar sem saber nada, e a experiência de o jogar depois de ver o PJ muito mais avançado que eu - e tenho de dizer que há mil e uma coisas que eu não sabia sobre o jogo antes de começar a ver o PJ jogar, e mil dessas eu nunca ia descobrir sozinha... Acho que o jogo é intuitivo q.b., ou talvez seja eu que não tenha encontrado as pistas certas para milhentas coisas. O que é certo é que há uma quantidade infinita de coisas por descobrir - e com elas vêm inúmeros objectivos e novos desafios, fazendo com que haja sempre algo a atingir no jogo, dando-nos sempre algum propósito e motivação para continuar.

 

Community Center: o primeiro 'grande' desafio que o jogo nos lança. Um local abandonado que temos de ajudar a recuperar. Daqui.

 

Gostava de conseguir explicar-vos por palavras tudo o que este jogo é; acho que o próprio trailer não lhe faz 100% de justiça com imagens. Mas aconselho muito a experimentarem este jogo (e a pesquisarem primeiro, se isso ajudar). Não se assustem com a complexidade, tudo se faz. E é no facto de nos dar tantas coisas para alcançar que está a piada. Volto a dizer, sem qualquer receio de fazer uma afirmação exagerada: este é o melhor jogo de sempre. Vão por mim.

 

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Quem conhece este jogo? Deixei alguém com curiosidade de experimentar? Acho mesmo que este é um jogo perfeito para quase toda a gente! Se decidirem não jogar, pelo menos deliciem-se com o soundtrack (perfeito para relaxar e/ou trabalhar).

 

19
Mai22

FILMES: Doctor Strange in the Multiverse of Madness

A busca por uma família em realidades distintas

Vera

Um dos filmes mais aguardados da quarta fase da MCU, a seguir ao Spider-Man: No Way Home, onde Stephen Strange lida com uma inconsequente Wanda (ou devo dizer Scarlet Witch?) enquanto esta faz de tudo para recuperar a sua família. E é desta forma que nos é reforçado o carácter íntegro de Doctor Strange, que faz de tudo para salvar America Chavez, a rapariga-chave para Wanda conseguir aquilo que quer.

 

 

A Marvel esmerou-se neste filme, mandou às favas o conceito de filme family-friendly e trouxe-nos momentos carregados de terror. Já disse por aqui algures que, apesar de não ver muitos, adoro ver filmes de terror, por isso não posso dizer que não tenha gostado destes novos elementos. Para quem já conhece melhor este género, não posso dizer que o filme seja efectivamente um filme de terror. Não é. É um filme com terror pelo meio, se é que isto faz sentido. Não é nada por aí além, mas também não é dos mais fracos que já vi; foi uma boa adição e teve momentos muito bem conseguidos.

 

Doctor Strange in the Multiverse of Madness é um daqueles filmes em que há muita coisa a acontecer ao mesmo tempo - sinceramente, acho que o próprio título já dá pistas para isso -, e pode ser difícil de acompanhar se não prestarmos tanta atenção. Mas penso que é também no facto de nos mostrar tantas personagens e realidades distintas que reside a sua força. Sobretudo se pensarmos na prestação dos actores para esse efeito, já que tiveram de representar várias pessoas diferentes.

 

Se há algo de negativo a apontar, diria que é o facto de o filme ter assentado numa fórmula muito parecida à de WandaVision no que toca à Wanda. No fundo, bem no fundo, não consegui não sentir que em certos momentos estava a ver algo repetido. O enredo em si é diferente, como é claro, mas aquilo que levou a ele não é. É verdade que, agora reflectindo, WandaVision não nos deu nenhuma conclusão no que toca à Wanda depois de tudo o que aconteceu - por isso a culpa foi só minha de ter terminado com a impressão que tudo estava bem. Não sei se "bem" é a melhor palavra, mas pelo menos que a Wanda tinha caído em si. Este filme veio desfazer tudo isso e voltou a acabar da mesma forma, pelo que agora estou com trust issues e com receio que a Wanda volte ao mesmo, mesmo que tudo indique, mais uma vez, que não.

 

O que é certo é que Doctor Strange in the Multiverse of Madness surpreende, terminando com um momento bastante sugestivo do que está para vir (e não nego que fiquei muito curiosa). Se vamos ver mais da Scarlet Witch ou não, ninguém sabe, mas está bastante certo que vamos ver muito mais de Stephen Strange... e de que maneira!

 

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Quem já viu, o que achou?

15
Mai22

JOGOS: Amnesia: The Dark Descent

O terror na sua forma mais básica

Vera

Sinto que preciso de fazer um pequeno disclaimer, ou desabafar um pouco sobre algo (que acho que só eu vejo como problema, mas pronto!). Sinto sempre que as minhas publicações sobre jogos (e também as de obras de Marvel) são das menos vistas, que ninguém liga muito a isso e não quer saber... Não deixei de escrever as da Marvel, mas as minhas reviews de jogos passaram um pouco para segundo plano, e neste momento pretendo voltar a escrever sobre eles. Tenho conseguido criar alguma identidade para mim própria no que respeita a jogos, tenho conseguido descobrir cada vez melhor aquilo que gosto mais, que gosto menos, em que sou melhor ou pior. A verdade é que o meu gosto por jogos faz parte de mim, e no fim do dia também me dá gosto poder partilhar jogos que gostei de jogar e cuja experiência valha a pena - até porque a experiência de jogar um jogo é completamente diferente da de ver um filme ou uma série, por norma é muito mais imersivo. Eu sinto que só me comecei a descobrir neste mundo quando comecei a explorar opções novas e a conhecer melhor o que é que havia por aí. Pode ser que estas publicações também ajudem alguém com isso. Inconscientemente, tornou-se um objectivo meu começar a tentar escrever reviews mais elaboradas e sólidas sobre os media que consumo, pelo menos sempre que possível. E sinto que no que toca a jogos, são dos que há sempre mais a dizer. Portanto é isto... Eu gosto de jogos, então vou escrever sobre jogos. Mesmo que sejam das publicações que mais trabalho me dão. Porque é que me dei ao trabalho de explicar isto tudo? Não sei bem... Mas vamos lá passar à publicação propriamente dita. Fiquem por aí!

 

Apesar de gostar muito de filmes de terror, jogos de terror já são outra história e eu sempre disse que nunca ia jogar nenhum. Isto porque jogos são muito mais imersivos que um filme e a experiência é completamente diferente.

 

Já não sei como adquiri os primeiros dois jogos da trilogia Amnesia - provavelmente numa oferta onde os consegui grátis, já que não ia gastar dinheiro com jogos que provavelmente nunca ia jogar. Conheci os títulos de Amnesia graças ao YouTuber PewDiePie, "back in the day" - ele ficou conhecido com este jogo, e arrisco-me a dizer que o jogo também ficou conhecido com ele. Na altura gostava muito de o seguir e gostei muito de o ver jogar o primeiro jogo desta trilogia - The Dark Descent. Lá está, ver os outros jogar não tem problema, mas jogar eu mesma? Nunca! Isto foi lá para 2011 - onze anos passados, a Vera decide arranjar coragem e jogar Amnesia: The Dark Descent. E é dessa experiência que vos venho falar.

 

 

Se formos falar da complexidade do terror deste jogo, sou a primeira a dizer: é do terror mais básico que há. Não há um terror com grande construção, não é psicológico, não é complexo. É pura e simplesmente um jogo baseado em jumpscares. E sim, é das execuções que mais detesto em filmes - e se um jogo poderia ser melhor que isso? Podia, mas eu acho que é o elemento básico de Amnesia que o faz brilhar em todo o seu esplendor. O jogo pode ser só baseado em jumpscares, mas a construção que existe para os gerar está muito bem conseguida.

 

E digo isto porquê? Porque o jogo brinca com o medo da forma mais simples, mas também da forma mais genuína que há - fazendo para isso uso de elementos tão básicos como o som e o escuro. No início do jogo há uma pequena dica que nos remete para o jogarmos num ambiente escuro e com fones, para que o possamos experienciar da forma mais imersiva possível. Eu não fiz isto - joguei sempre com a luz acesa e sem fones, e mesmo assim passei o tempo todo assustada.

 

Ora então: Amnesia - The Dark Descent é um jogo em primeira pessoa e começa com Daniel, a personagem principal, a acordar num castelo sombrio no meio do nada sem se recordar de absolutamente nada e sem saber como foi ali parar. Ao longo do jogo vamos encontrando pistas para a história em forma de diários e pequenas notas/recordações de como Daniel foi ali parar e o que está ali a fazer.

 

 

A dinâmica do jogo obriga-nos a passar a maior parte do tempo em locais tão escuros, onde não se vê absolutamente nada, com recurso apenas a um número limitado de caixas de fósforos que acendem velas e tochas que possam existir pelo caminho - mas que não ajudam assim tanto -, bem como a uma lanterna a óleo que se gasta rápido demais para a quantidade de escuridão que encontramos. Isto por si só já é excelente para transmitir uma grande sensação de impotência - e obriga-nos a equilibrar bem o uso da lanterna e a gerir quando precisamos realmente dela ou não, fazendo com que passemos grande parte do tempo apenas no escuro. Acrescento apenas que, apesar disto, conseguimos ver minimamente bem o espaço no escuro - não tanto ao longe, mas conforme nos vamos aproximando vamos vendo o espaço em que nos encontramos de forma um pouco mais clara do que quando estávamos a uns passos de lá chegar. Mas esta visibilidade depende muito de outra dinâmica do jogo: a vida e a sanidade da personagem.

 

A vida perde-se quando existe algum tipo de ferimento; já a sanidade perde-se quando a personagem principal assiste a algum tipo de acontecimento sobrenatural - sejam portas a abrir sozinhas, locais em derrocada ou o derradeiro encontro com um monstro. Sim, porque como não poderia faltar a um jogo de terror, o castelo está repleto de monstros estranhos (brutes) que parecem apenas ter fome de carne humana. Confesso que acho os brutes personagens um pouco caricaturizadas quando olho para eles de forma isolada; não os consigo levar a sério. Mas dentro do jogo e tudo o que ele implica, acho que funciona muito bem. The Dark Descent é um survival horror e o objectivo não passa por matarmos os brutes, mas sim por fugirmos deles e escondermo-nos até que desapareçam (pelo menos, no momento).

 

Outro aspecto a apontar sobre o terror neste jogo é que nos dá uma sensação muito bem conseguida de paranóia e perseguição. Eu levei HORAS a encontrar um monstro pelo castelo, o que não quer dizer que não tenha passado essas horas inteiras com medo de finalmente encontrar um. A verdade é que não sabemos o que vamos encontrar ao virar da esquina - alguns encounters com os brutes são fixos no jogo, mas outros são totalmente aleatórios; ou seja, se um brute vos matar num ponto do jogo, ao voltarem à vida naquele ponto já não o apanham outra vez. O que não quer dizer que não o possam apanhar na porta a seguir, ou então não, porque lá está - é aleatório. E acho que o jogo também brinca muito bem com o nosso medo em si; ao fazer-nos passar aquilo que parece demasiado tempo sem encontrar nenhum brute, torna-nos cada vez mais suspeitosos de ainda não termos sido apanhados, e consequentemente com cada vez mais receio de quando iremos ser. Para além disso, há certas sequências do jogo onde somos seguidos por algo... E essas são excelentes a gerar intensidade no jogo e a dar aquela sensação agoniante de "só quero sair daqui".

 

Este jogo funciona à base de puzzles que temos de desvendar para acedermos a novos espaços e/ou a nova informação sobre a história principal. Não nos dá nenhum mapa do local - faz parte do jogo a sensação de andarmos perdidos, às voltas, num local que parece um enorme, gigante labirinto. Mas esta mecânica também tem os seus pontos negativos. É que pode acontecer de por vezes não sabermos o que é para fazer a seguir e andarmos às voltas no mesmo local vezes sem conta sem conseguir avançar. Isto torna-se cansativo e começa a retirar um pouco a experiência de terror que o jogo tem, porque em certo ponto começa a "aborrecer" o jogador. E acho que isso é algo que não deve nunca acontecer num jogo de terror.

 

Choir: dos sítios mais escuros e labirínticos que encontrei. Esta imagem está retocada, não consigo encontrar imagens originais (provavelmente por não se ver mesmo nada de nada!). Daqui.

 

Também achei a história um pouco confusa neste formato de diários e flashbacks, achei que tinha sido talvez mais por distracção minha do que por culpa do jogo, mas quando fui pesquisar mais sobre a história para compreender o que tinha acabado de jogar, percebi que muitas pessoas também a tinham achado um pouco confusa. No entanto, acho que a história em si é um pouco assustadora e revela-nos elementos um pouco chocantes, de tão desumanos. Acrescento também que o jogo tem finais diferentes.

 

Apesar de tudo isto, foi uma experiência que gostei bastante e acho que este jogo vale muito a pena. É um terror básico? Sim, é, mas também é em alguns desses elementos básicos que reside precisamente a sua força. Os jogos Amnesia são dos mais conhecidos dentro deste género e este é considerado um dos melhores jogos de terror. Para além disso, não é um jogo muito longo, pelo que se consegue terminar nuns dias. Quanto a mim, valeu a pena a experiência e vou querer terminar a trilogia - eventualmente, quando voltar a sentir coragem para tal...

 

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Que me dizem deste jogo? Há coragem por esses lados para o jogar? Não posso dizer para irem sem medo, que é um pouco difícil... Mas avancem com medo e com a força toda!

 

11
Mai22

LIVROS: A Little Life, Hanya Yanagihara

Uma vida de sofrimento em 720 páginas, e reflexões sobre a emoção nos homens e sobre psicologia

Vera

Bem... Será difícil conseguir alguma vez descrever adequadamente a experiência de ler este livro. Estou um pouco sem palavras, não por não saber o que dizer, mas por ter tanto para dizer que nem sei como articular tudo isso. Bom, talvez também por não saber o que dizer, já que este é daqueles livros que nos fazem, acima de tudo, sentir - sentir tanto que é impossível passar para palavras o que sentimos. Recostem-se à cadeira ou sofá, que sobre este livro eu tenho muito, tanto a dizer... Esta review vai ser um pouco diferente do costume, porque gostava de reflectir sobre algumas questões pelo meio e não tanto falar apenas da obra em si.

 

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A Little Life é um título bastante adequado à história, já que o livro é, em si, uma pequena vida - em 720 páginas mostra-nos a vida de quatro amigos, centrando-se acima de tudo num deles: Jude, conhecendo-o como o resultado de um passado extremamente traumático. Não me perguntem sobre o que é o livro, não há resposta linear: o livro é sobre tudo, não é sobre nada em específico, é efectivamente uma pequena vida a passar com o tempo e com as páginas. É "só" isso, se não fosse ser muito mais que isso - é um livro tão cru, tão autêntico, tão pesado, tão cheio de dor, tão digno de dar voltas ao estômago. Num comentário que deixei num dos meus updates na leitura deste livro no Goodreads, disse que este livro era um constante "acho que cheguei à pior parte, só pode melhorar a partir daqui..." - sem nunca chegar a melhorar. De alguma forma o livro conseguiu sempre superar aquilo que eu achava que era o pior. Conseguiu piorar o que já era pior, e piorar ainda mais, e piorar mais um pouco. Foi uma história dolorosa. E é bastante gráfico em certas partes, por isso não é um livro que se recomende a toda a gente.

 

But what was happiness but an extravagance, an impossible state to maintain, partly because it was so difficult to articulate? He couldn't remember being a child and being able to define happiness: there was only misery, or fear, and the absence of misery or fear, and the latter state was all he has needed or wanted.

 

O livro está muito bem escrito. Estava com medo por ser tão longo, mas conseguiu cativar-me em quase toda a história; a escrita em si é bastante bonita. Está escrito na terceira pessoa e acho incrível como ainda assim consegue fazer-nos sentir tanto do que as personagens estão a sentir. Mais ainda depois de ter lido uma entrevista de 2015 com a autora que me fez pensar na questão deste livro se centrar num grupo de homens, já que Hanya acha que eles têm um vocabulário emocional mais pequeno que as mulheres, e devo dizer que concordei bastante com o ponto de vista dela. Deixo aqui o excerto do que ela disse sobre esta questão:

 

But I do think that men, almost uniformly, no matter their race or cultural affiliations or religion or sexuality, are equipped with a far more limited emotional toolbox. Not endemically, perhaps — but there’s no society that I know of that encourages men to put words to the sort of feelings — much less encourages their expression of those feelings — that women get to take for granted. Maybe this is changing with younger men, but I sometimes listen to my male friends talk, and can understand that what they’re trying to communicate is fear, or shame, or vulnerability — even as I find it striking that they’re not even able to name those emotions, never mind discuss their specificities; they talk in contours, but not in depth. But in order to name emotions, you have to be taught to name them. (...) In A Little Life, one of the things I most enjoyed exploring is how these men’s friendships, while close by anyone’s definition, are also built upon a mutual desire to not truly know too much. Again, I’m not saying that’s a bad or good thing — one needn’t confess everything to a friend to be known by him — but I do think that a friendship between two women (once again, for better or worse) is yoked by shared confessions.

 

Não tinha pensado tão a fundo neste ponto mas lembro-me de, num momento ou outro a meio da leitura, ter pensado superficialmente no quão bem me estava a ser expressado um sentimento de um ponto de vista de uma personagem masculina (e quão estranho isso era) - sei que pode soar parvo, mas isto que ela descreve eu sinto muito na vida real. E mesmo assim não posso deixar de concordar que simultaneamente me pareceu uma dinâmica muito masculina na perspectiva de que efectivamente estes homens não sabem quase nada sobre a vida uns dos outros. Se pudesse colocava tudo o que ela disse aqui, mas este post já vai suficientemente longo (com tanto ainda por dizer), pelo que deixo o convite para lerem a entrevista na íntegra porque vale a pena.

 

Não vou dizer que o livro é 100% perfeito, achei que se foi tornando um pouco repetitivo e talvez isso tenha surtido um efeito contrário ao que era suposto. Comecei a sentir uma certa dessensibilização: às tantas a história estava a expor-me tanto a situações dolorosas e traumáticas que eu comecei a deixar de sentir tanta empatia pela personagem e pelas suas dores, e comecei a pensar apenas: ok, já percebemos que é mesmo muito mau e que estás a sofrer mesmo muito, e que precisas de fazer mesmo isto vezes sem conta para te sentires melhor. Não me desapareceu a empatia por completo, continuou a ser uma leitura dolorosa e esta dessensibilização meio que ia e vinha; pelo que num momento estava cansada de ler sempre a mesma fórmula de sofrimento, mas no outro já estava encostada a um canto a chorar e a querer deixar este livro no congelador, como o Joey em Friends, porque estava a ser demasiado para aguentar.

 

Outro aspecto positivo é que achei este livro muito bem construído de um ponto de vista psicológico. A pessoa em que Jude se tornou após um passado tão doloroso, tão cheio de trauma, é muito realista, atrevo-me a dizer que é uma das personagens mais bem construídas com base no abuso que viveu. No entanto, achei que houve algum exagero no que toca à vida dele. Se calhar falo de um lugar de imenso privilégio, mas é possível que uma pessoa tenha tanto, tanto azar? Em tudo? Umas coisas seguidas às outras? Sei que sermos criados e educados em determinado ambiente não dá propriamente azo a que existam oportunidades de crescimento em ambientes melhores (apesar de isso até ter acontecido), mas custa-me um pouco acreditar que de sítio para sítio exista sempre um monstro semelhante ao anterior. Da mesma forma, não consegui compreender por vezes a inacção por parte de outras personagens; entendo o quão complicado seja agir e ajudar, mas quando se passa uma vida inteira a ver alguém passar e experienciar pelo mesmo, não é natural que exista eventualmente um ponto de "explosão", um ponto de viragem, um limite da tolerância à frustração? Neste livro pareceu não existir muito disso, o que acho um pouco estranho para pessoas que têm tanto amor e preocupação por alguém.

 

(...) he was worried because to be alive was to worry. Life was scary; it was unknowable. (...) Life would happen to him, and he would have to try to answer it, just like the rest of them. They all (...) sought comfort, something that was theirs alone, something to hold off the terrifying largeness, the impossibility, of the world, of the relentlessness of its minutes, its hours, its days.

 

Agora, infelizmente, tenho de dizer que a minha opinião acerca deste livro decaiu um bocadinho depois de ler a entrevista que referi anteriormente. Uma coisa que me deixou, em certos momentos, frustrada na história foi perceber que uma personagem que precisava tanto de ajuda profissional, nunca a conseguiu. Nunca conseguiu viver dias melhores porque nunca teve a ajuda para isso. E eu achava que esta era uma posição escolhida pela própria personagem - e relevava a minha opinião e compreendia essa escolha, porque nem toda a gente se sente confortável necessariamente para ter o acompanhamento de um psicólogo e/ou psiquiatra, ou nem toda a gente acredita ou espera que isso ajude de facto. E está tudo bem com isso.

 

Mas depois li a entrevista e percebi que esta posição vem da própria autora. E ler algumas das linhas que ela referiu deixou-me um tanto ou quanto confusa e um pouco revoltada com a posição que defende:

 

As for the limits of therapy: I can’t speak to them, only that therapy, like any medical treatment, is finite in its ability to save and correct. I think of psychology the way I think of religion: a school of belief or thought that offers many, many people solace and answers; an invention that defines the way we view our fellow man and how we create social infrastructure; one that has inspired some of our greatest works of art and philosophy. But I don’t believe in it — talk therapy, I should specify — myself. One of the things that makes me most suspicious about the field is its insistence that life is always the answer. Every other medical specialty devoted to the care of the seriously ill recognizes that at some point, the doctor’s job is to help the patient die; that there are points at which death is preferable to life (that doesn’t mean every doctor will help you get there, of course. But almost every doctor of the critically sick understands the patient’s right to refuse treatment, to choose death over life). But psychology, and psychiatry, insists that life is the meaning of life, so to speak; that if one can’t be repaired, one can at least find a way to stay alive, to keep growing older. (...) But I’m not convinced. However: maybe there is in fact a therapist or psychiatrist out there, who thinks that life is, for some people, simply too difficult to keep pursuing; who will give a suicidal patient permission, as it were, to die.

 

Embora concorde que existam casos que possam não ter propriamente nenhuma perspectiva de recuperação - embora também acredite que nesses mesmos casos a terapia pode ter, em si mesma, efeitos paliativos -, equiparar uma ciência validada por estudos rigorosos a uma simples crença e dizer basicamente que psicologia é uma treta já é grave por si só; mas mais grave se tornou a autora proferir as últimas palavras e afirmar que espera que exista algures um terapeuta ou psicólogo que dê permissão a um paciente para se suicidar. Não achem que a minha opinião é enviesada por ser formada na área; tenho falado muito nos últimos tempos com uma amiga do curso sobre certos elementos hipócritas da Psicologia e como muitas vezes tenta empurrar a pessoa numa direcção que nem sempre tem de ser a mais certa, só porque é a mais socialmente aceitável.

 

Mas acho que para argumento basta o facto de Psicologia ser uma ciência, repito, C-I-Ê-N-C-I-A, e não uma doutrina que alguém resolveu inventar simplesmente porque sim. Isto é o mesmo que dizer que a Medicina é um monte de balelas que não resultam com ninguém. Não só não consigo concordar com a visão da autora como acho grave que por detrás de uma história seja isto que ela esteja a tentar passar - que não vale a pena procurar ajuda profissional porque a psicologia é uma crença e não resulta, e se uma pessoa está para lá de remédio e não acredita nisso, então (segundo o que ela diz) mais vale só morrer e pronto. No mínimo, acho que se deve sempre tentar.

 

Apesar de tudo isto, este livro é uma grande obra de arte escrita, foi não um, mas vários socos no estômago e é um livro que vai ficar comigo para sempre. Volto a dizer, não é um livro que se recomende a toda a gente, muitas vezes tive de pousá-lo e parar de ler porque a mágoa estava a tornar-se insuportável. E apesar de achar que a vida da personagem foi um pouco exagerada, não duvido que existam muitas, tantas, demasiadas pessoas como ela pelo mundo... E isso consegue tornar tudo ainda mais sôfrego.

 

Se acharem que aguentam um livro destes, vão com força. A sua leitura vale muito, muito a pena. É um dos livros mais bonitos que já li, da maneira mais triste que já experienciei.

 

(...) all along he had been waiting for some sort of punishment for his arrogance, for thinking he could have what everyone else has, and here--at last--it was. This is what you get, said the voice inside his head. This is what you get for pretending to be someone you know you're not, for thinking you're as good as other people.

 

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Opiniões sobre este livro? E outra coisa: gostam mais deste tipo de publicação, com mais pesquisa e reflexão, ou é melhor limitar-me à minha opinião do que consumi, sem mais? Acho que este post ficou super longo, mas senti que depois de ler a entrevista precisava de falar de outros aspectos que lá foram mencionados.

07
Mai22

SÉRIES: Moon Knight

Um herói assente na mitologia egípcia

Vera

Moon Knight introduz Steven Grant, um pacato homem que trabalha na loja de recordações de um museu da história egípcia. Steven poderia ser um homem comum se não fosse o facto de ter vários blackouts no dia-a-dia que prejudicam a sua vida e dos quais não tem qualquer memória, fazendo com que muitas vezes passe do ponto A ao ponto C sem saber como foi ali parar.

 

 

Claro que estamos a falar de uma série da Marvel e por isso sabemos que Steven não é um homem comum, já que Moon Knight é mais um dos nossos queridos super-heróis. E posso dizer que adorei esta série e que a coloco junto a WandaVision na lista "séries da Marvel mais não-Marvel de sempre", isto é, que nos entregam algo completamente diferente daquilo a que estamos habituados - tanto no MCU, como em séries no geral.

 

Para começar, tanto a história como o super-herói andam muito à volta da mitologia egípcia. Eu tenho um bichinho dentro de mim com este tema, que andava adormecido, mas que prontamente despertou assim que comecei esta série. Adoro, adoro, adoro toda esta coisa dos Deuses egípcios, dos costumes egípcios, de elementos que tão bem conhecemos como sarcófagos, esfinges, pirâmides. Como é que não podia adorar uma série que assenta fundamentalmente em tudo isto?

 

Mas como não é só o tema que faz a série, tudo o resto foi perfeito. Tem um elenco incrível, com a prestação do grande Ethan Hawke no papel de vilão, mas também com uma revelação tremenda de Oscar Isaac no papel principal. Conhecia pouco deste actor - acho que só vi o Inside Llewyn Davis - mas depois disto merecia todos os prémios de melhor actor e mais alguns. Foi absolutamente incrível.

 

O enredo também está muito bem construído, conseguindo ser tão multifacetado sem estragar a história - eu experienciei drama, aventura, terror, comédia, mistério e suspense em tão poucos episódios, aliás, um episódio em concreto entregou-me quase tudo isto em coisa de 40-50 minutos! Conseguiu surpreender, tanto ao entregar bons plot twists como de um modo geral, já que foi por um rumo inesperado. E mais uma vez, isto tudo sem estragar nada da história.

 

A série acaba também por tocar um pouco no tema da saúde mental, o que era precisamente a cereja no topo do bolo que faltava para concluir que esta série foi feita para mim. A história do protagonista, quando revelada, é de partir o coração - mas está também bastante verossímil e realista de um ponto de vista psicológico, o que me agradou muito.

 

O único ponto negativo é o episódio final, que por algum motivo foi mais curto que todos os que o precederam e acabou por atar a história de uma forma muito corrida e apressada. Não entendi muito bem essa opção por parte dos produtores. Acredito que até 10 minutos a mais teriam feito alguma diferença.

 

Em todo o caso, vão sem medo, que esta é uma das melhores séries que já vi, da Marvel e fora dela. Valeu absolutamente todos os minutos passados a vê-la e não me importava que tivesse continuação. Depois de ver o primeiro episódio, a primeira coisa que disse ao meu namorado foi: que lufada de ar fresco! E agora, depois de a terminar, mantenho completamente o que disse.

 

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Quem já viu, o que achou?

11
Abr22

FILMES: Monstros Fantásticos: Os Segredos de Dumbledore

Vera

Não sei se cheguei alguma vez a dizer aqui algo que já pensei imensas vezes: em como as minhas opiniões de obras relacionadas com o universo Harry Potter serão sempre enviesadas porque nunca conseguirei não adorar. Não me alegro em vir dizer-vos que pela primeira vez na vida isso não aconteceu, e que a partir daqui já não posso dizer que gosto de tudo o que tenha a ver com este universo. Não é que não tenha gostado do filme... Mas também não adorei.

 

 

Neste terceiro filme da saga, vemos que Grindelwald está pronto para dominar o mundo e torná-lo mais puro, e consequentemente vemos a luta de Albus Dumbledore e do grupo de Newt Scamander para conseguir travar o terrível feiticeiro.

 

Antes de ver o filme só tinha ouvido coisas boas dele: em como era o melhor dos três, em como estava espectacular... Quanto a mim, ficou muito abaixo das minhas expectativas e agora tenho visto opiniões bastante ambíguas do mesmo.

 

Para um filme que promete um culminar tão grande, seja no desejo de Grindelwald de dominar o mundo, seja na tão esperada e derradeira luta entre ele e Dumbledore, esta obra entregou muito pouco. Não me conseguiu manter presa à cadeira e ao ecrã; saí da sala de cinema com uma sensação enorme de simplesmente... meh. Achei que teve tão pouca acção, que durante um filme tão longo não aconteceu nada. É isso mesmo que sinto: que não aconteceu nada ali. Nada. Mesmo tendo, obviamente, acontecido tanta coisa.

 

Por exemplo, e já que temos de endereçar o elefante cor-de-rosa na sala, e considerar a mudança de actor que houve para a personagem do Grindelwald, achei uma personagem tão incrivelmente fraca para um vilão que deveria ser tão implacável. E não acho que a culpa tenha sido dessa mudança no elenco, aliás, não posso esperar nada mais do que coisas boas de um actor tão bom como o Mads Mikkelsen. Acho sim que foi a própria construção da personagem neste filme que falhou.

 

Há momentos bons no filme, que nos dão muito da essência que distingue o mundo de Monstros Fantásticos do de Harry Potter: novas criaturas mágicas - sendo que gostei muito do facto de que todas elas tiveram um propósito e objectivo neste filme; com uma excelente adição de humor, misturando-o com uma sensação de tensão e mistério do desconhecido. Sim, estou a falar de uma cena em específico, a única que considero mais própria do filme e universo. Gostei também do plano inicial do grupo para combater este vilão, de como prometia deixar-nos a nós, espectadores, confusos - esperava ficar o tempo todo sem perceber nada do que se estava a passar, tentando no entanto desesperadamente perceber e decifrar algo, mas mais uma vez não sinto que foi isso que, no final de contas, o filme entregou.

 

Para terminar, só posso dizer que para um título que tanto alude a uma série de mistérios de uma das personagens mais fortes e marcantes do universo Harry Potter, terminei o filme com a sensação de "era só isto?". Infelizmente, este filme ficou muito aquém das minhas expectativas. Não era o tipo de obra que esperava de um universo destes. Deixou-me com uma sensação infeliz de "está na altura de deixar a saga para lá" e sem grande vontade de adquirir o futuro livro/guião.

 

Acho que teria preferido voltar a ver o Newt com os seus animaizinhos, sem se focarem tanto em tentarem trazer uma "nostalgia Harry Potter" à coisa. Não sei... Será que sou só eu?

 

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Quem já viu, o que achou? Vamos conversar sobre este filme!

27
Mar22

LIVROS: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, J.K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany

Vera

Senti falta do universo Harry Potter, em verdadeiro espírito de o-terceiro-filme-dos-Monstros-Fantásticos-está-quase-aí, e resolvi ler este livro, cuja história ainda não conhecia.

 

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Harry Potter e a Criança Amaldiçoada está escrito no formato de peça de teatro, já que existe de facto a peça de teatro homónima, tendo surgido nos palcos pela primeira vez em Julho de 2016. Isto faz com que a sua leitura seja extremamente fácil e rápida.

 

Esta história gira em torno do filho de Harry Potter, aquele que conhecemos no epílogo dos famosos livros e filmes: Albus Severus Potter, uma criança que se sente diferente das outras, deslocado do mundo que o rodeia e mesmo dentro da própria família, mostrando-nos o peso que pode ter numa criança o facto de esta ser filha d'O Rapaz que Sobreviveu. Em certo momento da história, Albus toma uma decisão que vai mudar todo o passado, o presente e o futuro, de formas drásticas. É assim que acompanhamos a sua aventura de navegar num novo mundo, em novos cenários e situações, tentando fazer o que acha melhor em cada momento.

 

O que dizer deste livro? Acho que é uma obra completamente diferente daquilo a que estamos habituados neste universo, pelo que não acho que seja favorável avançar para esta leitura com uma expectativa de encontrar algo semelhante ao que já foi lido e/ou visto. Não olho para este livro como descrevendo um mundo totalmente mágico - aquele a que já estamos habituados -, é um livro mais maduro que se propõe mais a mostrar o lado humano - conflitos, emoções, relacionamentos - do que propriamente o lado mágico. O formato também ajuda a isso, já que não existe nenhum narrador, existe apenas o diálogo entre personagens e as breves descrições de cenários, emoções ou acções.

 

Não sei bem do que estava à espera; gostei da história mas em certo modo ficou aquém das expectativas. Acho que a minha leitura acabou por ser influenciada pelo facto de ter crescido com o Harry, o Ron e a Hermione, e não com os seus filhos. Foi giro ler sobre eles mas não consegui criar grande ligação com essas personagens. Ao início achava o Albus um pouco irritante, até... Saí desta leitura sem criar grande afinidade com as personagens mais novas (até gostei do Scorpius, mas no fim do dia também pouco me diz).

 

Achei que talvez tenha também começado a ser um pouco repetitivo. Afinal a fórmula geral dos acontecimentos-chave foi sempre a mesma... E aconteceu uma, e outra, e outra vez. Apesar de ter dado resultado a um contraste particularmente interessante. Não sei também se gostei assim tanto dos novos dados que trouxeram a este universo, nomeadamente no que toca ao fruto daquele "relacionamento" (quem já leu vai perceber certamente do que falo). Achei que veio meio do nada, meio sem explicações... meio só porque precisavam de algo que parecesse interessante para contar na história.

 

Apesar de tudo isto, bom, é Harry Potter e tudo o que é Harry Potter eu vou gostar. Agora queria muito, muito poder ver esta peça ao vivo! Porque é que temos de viver encostadinhos a este canto à beira-mar plantado? 

 

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Quem já leu esta peça? Partilhem as vossas opiniões comigo nos comentários! 👇

17
Mar22

LIVROS: A Abadia de Northanger, Jane Austen

Vera

Uma releitura originada pela decisão de encomendar, ou não, este livro da colecção da RBA. Não fosse este acaso a fazer-me voltar a lê-lo e eu nunca teria percebido a diferença que dez anos podem fazer na leitura de um livro.

 

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É verdade, passaram dez anos desde que li esta obra pela primeira vez. E nunca, em momento algum, me passou pela cabeça, na altura, que este livro era uma sátira. Podemos imaginar, portanto, que a experiência de o ler desviou-se completamente da questão central do livro.

 

A Abadia de Northanger apresenta-nos Catherine Morland, uma rapariga ingénua e inocente que vai passar alguns tempos fora de casa e da sua cidade natal: primeiro, em Bath, acompanhada pela família Allen, amigos da sua família; e depois, na abadia de Northanger. Quando chega a Bath conhece duas famílias muito distintas à sua maneira: a família Thorpe e a família Tilney. Da primeira nasce uma amizade com uma das filhas, Isabella; e da segunda um apreço por Eleanor, filha, e um amor por Henry, um dos filhos.

 

Este livro apresenta-se como uma sátira aos romances góticos nos mais variados aspectos: Catherine é uma rapariga que parece desconhecer o modo de funcionamento geral do mundo real, sentindo-se uma heroína semelhante às dos romances que lê, vendo o mundo à sua volta tendo por base esses livros e personagens. Pode dizer-se que vive com a cabeça enfiada nos livros, de tal forma que transparece tudo isso para a sua realidade. É, por isso, fácil apercebermo-nos da sua inocência e ingenuidade, a tal ponto que nada do que lhe acontece vem exactamente como uma surpresa para nós, leitores.

 

A Abadia de Northanger apresenta-nos personagens, na sua maioria, ocas e superficiais, algumas até fúteis: os filhos Thorpe são pessoas intragáveis, muito embora Catherine olhe para a sua amizade com Isabella como muito importante e especial; a senhora Allen passa a vida a falar das suas roupas e a julgar as dos outros; pelo menos duas personagens agem por interesse, mesquinho e materialista, respectivamente. E enquanto nós, leitores, estamos cientes da verdadeira realidade (passo a expressão) de tudo o que se passa, Catherine desculpa tudo tanto com base na sua inocência, como com base nos romances que lê e em como deve ser suposto acontecer assim, e conhecer pessoas assado. Este livro também goza muito com os mistérios e cenários obscuros característicos de romances góticos, sobretudo quando Catherine vai para a abadia.

 

Pelo meio, Jane Austen vai fazendo algumas intervenções, enquanto autora, para gozar ainda mais com certos aspectos deste tipo de literatura. É um livro que, chegando ao fim, nos faz perceber que foi divertido de ler, mas eu pessoalmente sinto que poderia ter sido ainda mais. Se Jane Austen queria satirizar estas obras, cenários e personagens, então deveria tê-lo feito a 150%; sinto que foi uma sátira muito controlada, às vezes tive de me lembrar a mim própria que estava a ler uma sátira. Acho também que a construção das personagens falhou em certos momentos, apesar do elemento irónico da obra não consegui, em certos momentos, não encarar as personagens como simplesmente irritantes, ignorantes e/ou aborrecidas.

 

Outro aspecto que tenho a apontar prende-se com o título do livro, a Catherine só chega à abadia muito depois de já metade do livro! Não conheço romances góticos o suficiente para perceber se isto foi ou não intencional, pode ter sido mais um elemento de sátira da obra. É que lembrou-me muito Jane Eyre em como se estendeu tanto a contar todos os detalhes da história da personagem.

 

Apesar de tudo isto, foi uma leitura prazerosa, acho que surpreendeu no final (tendo em conta que já não me lembrava de nada), e acho que conseguiu com que Catherine acordasse um bocadinho para a realidade (mas só um bocadinho). Gostei, vale a pena a leitura e não sei como raio interpretei este livro há dez anos se não sabia sequer que era uma sátira.

 

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Alguém já leu por aqui? Partilham da minha opinião de que podia ter sido ainda mais exagerado?

14
Mar22

Sobre comprar livros

Vera

Hoje apeteceu-me vir aqui divagar sobre um assunto que talvez não seja nada de importante, mas no qual me pus a pensar. Como sempre, este posts para mim não são nada sem as vossas opiniões, por isso conto com vocês! Vou começar com uma pergunta aparentemente simples (porque para mim, não o é assim tanto): o que vos faz comprar um livro? Neste caso, acho que me refiro mais àqueles dos quais não conhecem nada.

 

Eu explico: dei-me conta que só acrescento livros à minha lista para ler se tiver lido reviews de blogs que sigo e me tenham despertado interesse. Essa tornou-se na minha única forma de me envolver no mundo literário, de saber as novidades e de conhecer mesmo os mais antigos. Eu só compro livros quando apanho boas promoções, ou se já forem mais baratos por si só. Por este motivo, nem é uma coisa que eu faça assim tanto - comprar livros -, mas quando compro são sempre livros que já estão na minha lista para ler, essa mesmo que cresceu devido às opiniões que li de outras pessoas.

 

A minha questão com este post todo é: às vezes há livros com bons preços que nunca li, que não conheço, dos quais nunca ouvi falar, cujos autores não conheço, com capas apelativas (sou mesmo a leitora que liga muito às capas) e afins. Mas sinto uma espécie de fear of missing out inverso, em que não tenho medo do que estou a perder ao não comprar esses livros, mas sim do que poderei perder ao comprá-los: dinheiro, tempo, energia... Resumidamente, dei-me conta que tenho um medo enorme de arriscar o dinheiro em livros que, por não conhecer absolutamente nada deles a não ser a sinopse na contracapa, posso vir a não gostar. O livro até pode custar uns míseros 3€, a sinopse pode parecer a coisa mais interessante do mundo, e eu não o vou comprar porque nunca ouvi falar nada dele e tenho um medo gigante de me desiludir.

 

A vossa primeira reacção será, certamente, dizer "mas Vera, não pode acontecer também o contrário e adorares a história?". Nada a contra-argumentar, pode totalmente acontecer. Também sei que até as opiniões que li dos livros que tenho na lista para ler não me garantem, de todo, que vá gostar deles. Portanto podemos concluir que o meu raciocínio não tem grande sentido. Sei disso tudo, e no entanto não me consigo libertar deste medo parvo e irracional - medo esse que, tenho plena consciência, pode estar a fazer-me perder efectivamente grandes obras e autores.

 

Quais são os vossos two cents na matéria? Alguém como eu ou posso sentir-me sozinha nesta luta?

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