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mil e quinze

Livros, séries, filmes e muito mais ♥

22
Out22

LIVROS: I'll Be There For You: The One About Friends, Kelsey Miller

Vera

Como fã acérrima de Friends, claro que tinha de ler este livro sobre a série. Se estava entusiasmada por lê-lo? Sem dúvida. Se foi uma experiência agradável? Não tanto...

 

Livro I'll be there for you the one about friends Kelsey Miller

 

I'll Be There For You foi escrito pela jornalista Kelsey Miller e revela-nos uma série de informações relacionadas com a série de televisão, desde informações básicas de trivia aos percursos dos actores antes, durante e após Friends, passando por peripécias e outros acontecimentos no decorrer da produção da série durante todos aqueles dez anos.

 

Nunca ouvi audiolivros, mas acompanho a Rita da Nova que diz várias vezes que, para ela, os melhores livros para ouvir são os de não-ficção e, dito isto, pergunto-me se a minha experiência com este livro teria sido melhor se o tivesse efectivamente ouvido em vez de ler. Dá para perceber que Kelsey Miller é jornalista porque este livro nada mais é do que a compilação de diversas informações que facilmente se encontram espalhadas pelo domínio público; e em termos de escrita não tem nada. Não detestei o livro porque me informou de uma série de coisas das quais não tinha conhecimento - algumas não tão boas e que não consigo acreditar que me escaparam por completo, como por exemplo o caso de Amaani Lyle, que me chocou por completo (apesar de não surpreender) e me deixou com a mesma sensação que sinto em relação ao filme The Wizard of Oz: uma das minhas obras favoritas na vida manchadas pelo abuso e horror que se passavam no background...

 

Mas no geral não diria que foi uma leitura agradável, acho que teria passado bem sem o ler e não me marcou particularmente. Apesar de ter aprendido e passado a conhecer umas quantas coisas, o livro por vezes é só excessivamente extenso e aborrecido. Na introdução - longuíssima, por sinal -, Kelsey Miller passou uma quantidade excessiva de páginas a discorrer sobre outros trabalhos dos actores antes de Friends - uma quantidade absurda de séries das quais nunca ouvi falar ou só conhecia de nome, com um monte de informações irrelevantes sobre as mesmas, como se todos soubessemos do que ela está a falar, como se tivessemos interesse em ouvir falar de coisas que não vimos nem conhecemos, como se não estivessemos naquelas páginas por querermos saber sobre nada menos que Friends, apenas Friends.

 

Para além disso, decide debater em várias páginas sobre diversos temas problemáticos na série - e atenção, houve quem tivesse odiado por completo este take por parte da autora, mas eu pessoalmente não me importei e gostei de ler os seus pensamentos sobre certos assuntos. Mas para mim este tema vai dar sempre ao mesmo: a série é dos anos 90, os tempos eram outros, por mais problemático que seja hoje em dia (e é), eu vejo isto como um não-assunto. O que é que se pode debater de algo que já foi feito, já está terminado, de há décadas atrás? É importante que estejamos alerta para os elementos problemáticos da série numa perspectiva de pensarmos criticamente sobre eles hoje em dia e aprendermos a saber e fazer melhor; mas "bater no ceguinho" e continuarmos a focarmo-nos nesses aspectos por uma pura perspectiva de "devia ter sido diferente" não faz sentido no contexto temporal e cultural desta série. Uma coisa que devo dizer que gostei, no entanto, foi da autora ter feito algum esforço por, no fim, retirar algo de positivo destes temas problemáticos na série - experiências de pessoas pertencentes a minorias que viram a série na altura. Sinto que houve uma coisa que ela disse que define muito esta série em relação a estes assuntos: ela está longe, bem longe de ser perfeita, mas em certas representações, para o tempo em que foi feita, conseguiu ser "melhor que nada".

 

Acho que o livro relatou diversos factos e curiosidades interessantes, mas de facto eu não acho que este livro seja para ser lido. Parece mesmo apenas um trabalho jornalístico e não apela em nada ao leitor em termos de escrita, talvez por isso tenha começado a pensar tanto que a minha experiência teria sido melhor se o tivesse ouvido.

 

Tinha muita coisa para dizer sobre ele, mas acaba por se focar em tantos aspectos diferentes que acho que a única coisa com que posso concluir é que, efectivamente, aprendemos muito sobre Friends e tudo o que isso envolve, de todas as formas e mais algumas. O tema é interessante, mas a execução é plana e aborrecida. Por isso, não recomendo; no máximo, recomendo que o ouçam - e se o fizerem, podem relatar-me a experiência? É que acredito que teria sido mais interessante. Vejo este livro mais como documentário do que como livro. Talvez esse formato tivesse sido uma melhor escolha.

 

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Quem aqui vê Friends? Conhecem este livro, ou têm curiosidade de o ler?

02
Out22

10 Books Challenge

Vera

Recorri à solução fácil de arranjar uma (book) tag para publicar alguma coisa neste blog. Nem é que tenha falta de conteúdo - vi dois filmes novos, mas ainda não me apeteceu escrever sobre eles. Talvez porque tenho lido tão pouco, apetece-me escrever sobre livros. Por isso, fui pesquisar uma book tag qualquer para me dar uma desculpa para o fazer.

 

Chama-se 10 Books Challenge e consiste em listar 10 livros que de alguma forma nos marcaram, sendo que as regras ditam que não é suposto nos demorarmos muito na resposta nem pensar demasiado nela. Poderei ou não ter alguma dificuldade nessa parte. Sem mais demoras, aqui vamos nós:

 

1. Um livro que me fez pensar

Assim de repente, aquele que me vem à cabeça é o A Little Life, de Hanya Yanagihara. Acho que só pela review dá para perceber o quanto me fez reflectir sobre diversos assuntos: psicologia e terapia; traumas; abuso; emoções nos homens...

 

2. Um livro que me surpreendeu

Lucia, Lucia, de Adriana Trigiani. Um livro que consegui há mais de dez anos, quando uma editora estava literalmente a oferecer vários livros grátis às pessoas. Por esse mesmo facto fiquei com algum preconceito em relação ao livro. Para estarem a dá-lo assim é porque não vendeu muito e por isso não deve prestar, pensava eu. Estava redondamente enganada: a história é interessante e fala-nos de uma mulher nos anos 50 que, contrariando a sua época, não se interessa minimamente por casar e arranjar um marido. Pelo contrário, a sua carreira é bem mais importante. Lembro-me vagamente que me senti muito inspirada pela personagem de Lucia. Uma surpresa, sem qualquer sombra de dúvidas.

 

3. Um livro que me fez sentir feliz

Esta é difícil e até tive de ir ver os livros que já li. E não sei se consigo responder. Gosto sempre tanto de histórias impactantes que acho que ainda não li nada que me tenha feito sentir verdadeiramente feliz. A resposta mais aproximada que posso dar será, talvez, o Terapia de Casal, da Rita da Nova e Guilherme Fonseca. Cheio de humor e ilustrações engraçadas, fez-me rir e foi escrito por duas pessoas que admiro. Feliz não será a palavra certa, mas é a mais aproximada.

 

4. Um livro que me fez sentir triste

A Man Called Ove, de Fredrik Backman. Na verdade, podem colocar este na resposta anterior. Todo um misto de emoções neste livro. Mas que chorei que nem um bebé em algumas partes, chorei.

 

5. Um livro que me tenha feito sentir nostálgica

Mais uma vez, sinto que não tenho uma resposta 100% exacta a esta questão, mas a que mais se aproxima será talvez The Midnight Library, de Matt Haig. Como verdadeira adepta de remoer nos "e se?" da vida, foi um livro perfeito para sentir falta daquilo que nunca foi.

 

6. Um livro com o qual tenho uma relação de amor/ódio

November 9, de Colleen Hoover. Adorei lê-lo, mas detesto o Ben enquanto personagem, detesto a toxicidade, detesto o quão perturbador se torna. Amo odiar esta história. E odeio amá-la.

 

7. O livro que reli mais vezes

Acho que, todos os livros que reli, reli apenas uma vez, pelo que a quantidade está exactamente igual para todos. Assim de repente: 1984, de George Orwell e O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

8. Um livro que me fez querer viajar

Dentro do Segredo, de José Luís Peixoto. O que é estupidamente irónico se considerarmos que nos conta a visita do autor à Coreia do Norte e que não, não tenho assim tanto desejo de lá ir. Mas fez-me querer viajar. É indiscutível.

 

9. Um livro que me fez sentir tudo e mais alguma coisa (para referência futura, se calhar não é boa ideia traduzir desafios para português... gave me all the feels, era o que lá estava escrito)

O que é que vamos considerar aqui como "tudo e mais alguma coisa"? Se for chorar que nem um bebé, repetimos aqui o A Man Called Ove. Se for sentir muitas coisas diferentes que não sejam necessariamente boas, podemos repetir o A Little Life. O My Dark Vanessa, de Kate Elizabeth Russel também fez esse trabalho muito bem.

 

10. Um livro que não queria ter lido

A Irmandade do Anel, de J. R. R. Tolkien. Eu acho que nunca mais vou conseguir esquecer o terrível aborrecimento que este livro me deu. Perdi tempo, perdi energia, acima de tudo perdi bastante paciência. Paguei as consequências da minha própria teimosia: a preserverança só me trouxe irritação e desagrado. Não podia mais ver o livro à frente e ler tornou-se desprazeroso. Nunca mais.

 

Estes são os meus dez livros. Bem, mais de dez livros porque eu claramente não sei cumprir instruções e quando pedem um livro eu dou 4 ou 5. E vocês? Quais seriam as vossas respostas a esta tag? Por favor partilhem comigo nos comentários porque estou muito curiosa!

06
Set22

Fui à Feira do Livro de Lisboa!

A jornada de uma miúda do interior

Vera

Com certeza lembram-se que há umas semanas andava a pensar ir à Feira do Livro e até vim aqui pedir-vos ajuda. É um evento do qual ouço sempre tanto falar, sobretudo aqui pelos blogs, que comecei a ficar com alguma curiosidade de o experienciar pelo menos uma vez na vida, já que sou do interior centro de Portugal e por isso não me é assim tão acessível nem está ao virar da esquina.

 

A decisão foi tremida e um pouco em cima da hora. O site não estava correctamente actualizado (já explico esta), fartei-me de pesquisar os livros do dia - e concluí que, a ir, valeria mais a pena no último fim de semana por esses - e fartei-me de pesquisar as sessões de autógrafos. Não parecia ir ninguém que me interessasse e não sabia se devia ir apenas por dois ou três livros do dia. Até porque ir para lá implica gastos com viagens, alojamento e refeições, não apenas os dos livros.

 

Acontece que entretanto a Rita da Nova e o Guilherme Fonseca anunciaram no Twitter que iam ter uma sessão de autógrafos no dia 3 - algo que não estava nem apareceu por uns bons dias no site da Feira... Nesse fim de semana eu tinha o menor número de livros do dia que me interessassem (acabou por não ser bem assim) e fiquei mais uma vez a contemplar se devia ir apenas por uma coisa sem ter a outra. Voltei a ir à lista dos livros do dia e encontrei uns quantos que, apesar de não estarem no topo das prioridades, podia muito bem aproveitar. Não pensei assim tanto no assunto e comecei a fazer todas as compras e reservas necessárias (que foi uma aventura por si só, também, mas não é relevante para aqui).

 

Depois de todo o stress que este planeamento corrido e cheio de percalços deu, restou esperar pela data. E no dia 3 de Setembro, a horas que ninguém merecia acordar, estava eu pronta para fazer viagem rumo a Lisboa. Passámos lá o fim de semana - é sempre um bom pretexto para passear em Lisboa, no geral - e ajudou muito que o alojamento fosse na zona do Parque Eduardo VII. Estivemos a maior parte do tempo pela Feira e foi bom não termos de fazer viagens constantes de metro.

 

Não saímos dessa zona o Sábado inteiro e ainda fizemos uma passagem rápida na manhã de Domingo para comprar os livros desse dia, antes de partirmos para outras zonas de Lisboa para os últimos passeios. Desculpem esta introdução longuíssima, mas queria falar da experiência como um todo. Agora sim, sobre a Feira propriamente dita:

 

Adorei! Como passámos lá imenso tempo, sinto que tivemos oportunidade de explorar tudo bem (ou tão bem quanto possível, dada a dimensão). Sobretudo ao fim do dia, quando já não existia a pressão de ter reservas em restaurantes, de não saber se iam estar filas grandes para a sessão de autógrafos, de podermos simplesmente dar uma boa volta a tudo e ver com olhos de ver o que por lá havia.

 

Saí de lá com a conclusão de que é uma experiência que vale a pena por si só, sem ser preciso comprar livros, sem ser preciso sessões de autógrafos (mas claro que, para quem vem de tão longe, convém ter alguma recompensa). E espero muito sinceramente poder repeti-la todos os anos.

 

Gostei muito de ter conhecido a Rita e o Guilherme. Felizmente a fila não era muito grande e, na verdade, eu consegui ser das primeiras pessoas, pelo que a experiência foi "rápida" o suficiente. Como não consegui ir a nenhuma data da tour do livro deles, achei que podia aproveitar esta oportunidade para os conhecer. Na verdade, foi a primeira vez na minha vida inteira que conheci pessoas mais conhecidas de quem gosto muito. Estava uma pilha de nervos  Mas valeu a pena. Super simpáticos.

 

Sobre os livros... Ajudou muito (mesmo muito) ter a famosa lista preparada no meu telemóvel com todos os locais dos livros do dia. O que não fiz tão bem e melhorarei para a próxima foi não ter visto editoras específicas para os livros que me interessava comprar no geral (sem serem livros do dia). Acabei por não me focar muito nesses porque são tantos livros, em todo o lado, à nossa volta, que fica difícil procurar títulos específicos no meio de tanta coisa. Outra coisa que fiz foi pesquisar os preços nas livrarias de antemão. Ajudou a não comprar um livro do dia que, apesar de barato, estava mais barato noutro sítio quando pesquisei.

 

Uma das partes que mais me interessava era ver os livros de alfarrabistas e os títulos descontinuados. Aproveitei a noite de Sábado para me focar mais nessa parte, por estar mais calmo e não ter pressões de mais nada. Mas como são títulos praticamente únicos, também fica difícil ver tudo muito bem. (Há algum tipo de técnica que usam neste ponto?) Ainda parei em dois livros, mas acabei por não os trazer.

 

Acabei por aproveitar apenas livros do dia. Todos a menos de 10€, que normalmente é o meu orçamento limite para quaisquer livros que sejam. Desculpem editoras de Portugal, mas os vossos preços normais realmente não são simpáticos. E aqui ficam os livros que comprei:

 

Feira do Livro Lisboa

 

O único que já tinha era o Maus - comprei-o há mais de um ano em segunda mão, mas não sabia que as edições antigas estavam divididas em dois volumes e que este era apenas o primeiro. Vou tentar vendê-lo. As edições recentes juntaram tudo num só livro, que é o caso deste que comprei.

 

O ambiente que se vive na Feira é maravilhoso e vale a pena por si só - posso dizer que nunca vi o meu namorado (que raramente lê) com tanta vontade de comprar livros (e a comprá-los). Atribuo metade disso ao seu consumismo influenciável, mas a outra metade atribuo ao ambiente da Feira. Ele não é um leitor tão ávido e adorou a Feira - queremos os dois repetir. Poder sair de lá com títulos mais baratos que tanto queríamos ler é apenas um belo bónus junto ao resto.

 

E, a não ser que a vida seja muito madrasta comigo e me diminua as condições de vida, espero mesmo que esta possa ser uma experiência a repetir todos os anos. Para a próxima, só pedia duas coisas: informações disponibilizadas muito mais cedo e que estas fossem correctas e não existissem lacunas...

 

Até à próxima, Feira do Livro... Vemo-nos em 2023?

31
Ago22

LIVROS: The Book of Mythical Beasts and Magical Creatures

Vera

Conheci este livro lá para Julho no blog da Sara, e não sei porque me interessou tanto - é de facto um tema interessante, mas não tenho particular afinidade com o mesmo. O que sei é que de alguma forma conversou comigo e, depois de ter visto que a arte era incrível, não demorei muito a querer tê-lo e lê-lo.

 

Book of Mythical Beasts and Magical Creatures

 

É um livro que nos conta breves histórias de várias figuras mitológicas e fantásticas que fazem parte de diversas culturas por esse mundo fora. É muito interessante ficar a conhecer criaturas das quais nunca tinha ouvido falar e acho que, em algumas delas, conseguimos retirar muito das culturas que as criaram (para o bem e para o mal).

 

A arte é realmente incrível e o ponto mais forte deste livro. É um livro muito, muito bonito. Foi uma experiência maravilhosa poder lê-lo e apreciar todo o trabalho artístico para representar todas as criaturas.

 

Antes que se perguntem: a foto tem um pop do Loki porque também ele está incluído no livro. Não vos quero mostrar demasiado do que este livro contém - e, acreditem, ainda nos apresenta uma quantidade significativa de criaturas - mas deixo-vos com as páginas da primeira criatura de que falam, para poderem ter uma ideia da arte. Curiosamente, são das minhas páginas preferidas do livro.

 

Book of Mythical Beasts and Magical Creatures Ymir

 

É considerado um livro infantil mas acho que poderá ser um pouco assustador para crianças com uma imaginação mais fértil e, na realidade, acho que este livro é uma delícia para toda a gente. Já disse que é um livro muito, muito bonito? Sem dúvida que recomendo. Só posso dizer que gostava muito de ver uma versão ainda mais detalhada do mesmo.

 

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14
Ago22

LIVROS: November 9, Colleen Hoover

Vera

Já tinha ouvido falar deste livro e estava na minha lista mental de livros para ler. Depois de ler a primeira linha de um comentário pela Internet - parei aí porque estava a chegar um spoiler -, fiquei com a vontade aguçada e não demorei muito a cumprir a leitura.

 

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9 de Novembro marca o aniversário de um acontecimento trágico na vida de Fallon. Naturalmente, é um dia que ela não gosta de recordar e que saltaria facilmente no calendário. Num desses 9 de Novembro, a um dia de se mudar para Nova Iorque, Fallon conhece Ben, um aspirante a escritor que encontra nela a inspiração de que precisava para escrever um livro. Os dois dão-se rapidamente muito bem e continuam a encontrar-se durante anos, até que Fallon descobre uma terrível verdade sobre Ben que a faz questionar se ele não passou esse tempo todo a tentar apenas fabricar o enredo perfeito.

 

Muito se fala da Colleen Hoover e de vários livros dela, sobretudo pelo booktok, mas ainda só tinha lido o Regretting You - livro que achei apenas ok, e agora percebo porquê e porque é que este último não é dos mais conhecidos dela. Não preciso de ler mais livros da Colleen para perceber, depois deste, que ela encontrou uma excelente fórmula de escrita para vender - fórmula essa que não existe no Regretting You, a meu ver.

 

Não estou a criticar porque, efectivamente, a fórmula funciona - ou eu não teria devorado este livro em quatro dias, ansiosa por saber tudo o que acontece. Mas vai ser difícil falar sobre esta história, já que me deixou com muitas sensações ambíguas.

 

«“One of the things I always try to remind myself is that everyone has scars,” she says. “A lot of them even worse than mine. The only difference is that mine are visible and most people’s aren’t.”»

 

A história é chocante e algo doentia, mas estamos a falar de um romance - foi escrito para ser bonito. E acho que isso não tem problema se formos capazes de reconhecer que, na realidade, apesar de o ser, de romance não tem nada - o Ben é uma personagem que me deixou desconfortável desde o início e tem algumas atitudes que, a meu ver, são questionáveis. E eu não quero levar o livro demasiado a sério, não quero ser a pessoa que problematiza coisas que são apenas ficção - para me preocupar com problemas, já bastam os do mundo real -, no entanto preocupa-me que algumas pessoas menos conscientes possam lê-lo e ficar encantadas com o romance que para ali vai, normalizando certas atitudes que não deviam ser normalizadas e não pensando duas vezes no que acabaram de ler. Porque o livro não é uma crítica a essas atitudes, pelo contrário, também as incorpora como normais. É um romance. Foi escrito para ser bonito.

 

Passando esta breve reflexão à frente, apesar disso gostei muito de o ler. E tenho uma teoria (com dois livros lidos apenas, portanto posso estar a dizer asneiras), mas não acham que a Colleen é o Nicholas Sparks da nossa geração? Pessoalmente, ainda melhor, porque eu não gosto de ler Nicholas Sparks... Afinal, ela só escreve histórias trágicas - algumas, pelo que tenho ouvido falar, com alguns clichés. Inclusive, também achei que este livro incluía alguns momentos mais cliché. Mas caramba, se não adorei lê-lo.

 

«(...) and comfort can sometimes be a crutch when it comes to figuring out your life. Goals are achieved through discomfort and hard work. They aren't achieved when you hide out in a place where you're nice and cozy.»

 

Não posso dizer que queira ler o próximo o mais rápido possível - este livro foi bastante pesado e deixou marcas suficientes para eu precisar de respirar. Mas como já referi, a fórmula da Colleen Hoover funciona na perfeição e eu não tenciono ficar por aqui.

 

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Quem, por aqui, já leu? Que outros livros dela me aconselham? Comprei o Verity há pouco tempo. E perdoem-me se assumi um monte de baboseiras depois de ler só dois livros dela e as vim debitar para aqui, fazendo figura de parva.

10
Ago22

LIVROS: A Man Called Ove, Fredrik Backman

Vera

Demorei um pouco a conseguir envolver-me na história deste livro e, agora que já o li por inteiro, penso que isso talvez seja um reflexo da boa escrita de Fredrik Backman.

 

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A Man Called Ove começa por nos dar a conhecer o protagonista que dá nome ao título, Ove, como um homem de 59 anos carrancudo e rabugento. Ove gosta de ordem e de regras e não se identifica com quase nada nem ninguém dos tempos actuais em que vive. Mas não demoramos muito a descobrir as razões que levaram a que Ove seja a pessoa que é, fazendo-nos perceber que por detrás deste homem taciturno está uma triste história de sofrimento e dor. A partir daqui, conseguimos ir percebendo que, na verdade, Ove é um homem bondoso, de coração gigante.

 

É por isto que sinto que a minha dificuldade em envolver-me na história no começo foi apenas um reflexo do quão bem Fredrik Backman escreve, já que ao início Ove parece-nos simplesmente uma personagem desagradável. Mas à medida que avançamos no livro vamos percebendo que não é bem assim e vamo-nos afeiçoando a esta pessoa que começamos a conhecer melhor.

 

A Man Called Ove é, acima de tudo, uma história sobre relações humanas, conflitos, mas também sobre apoio, amor e empatia. Uma daquelas histórias que tanto gosto que nos relembram o quão especial é criar laços com as pessoas, criar amizades, não estarmos sozinhos.

 

«"Loving someone is like moving into a house," Sonja used to say. "At first you fall in love with all the new things, amazed every morning that all this belongs to you, as if fearing that someone would suddenly come rushing in through the door to explain that a terrible mistake had been made, you weren't actually supposed to live in a wonderful place like this. Then over the years the walls become weathered, the wood splinters here and there, and you start to love that house not so much because of all its perfection, but rather for its imperfections. You get to know all the nooks and crannies. How to avoid getting the key caught in the lock when it's cold outside. Which of the floorboards flex slightly when one steps on them or exactly how to open the wardrobe doors without them creaking. These are the little secrets that make it your home."»

 

E também é uma bonita história de amor, daquelas que não sei mais se se encontram nas gerações mais recentes, mas que algures pelo mundo e por outros tempos ainda existem.

 

Acabei por gostar deste livro bem mais do que estava à espera, sobretudo por ter demorado tanto a entrar na história, mas assim que começou a entrar nos eixos começou a valer muito a pena. Gosto que tenha pelo meio tantas situações caricatas com tantas personagens diferentes - a certa altura parece-nos haver certos momentos de alguma comédia no meio de uma história tão triste. E não é que faz tanto sentido que sejam estas personagens a trazer mais leveza à vida de Ove? A torná-la menos cinzenta?

 

Outro aspecto a salientar neste livro é a forma como Fredrik nos revela as coisas. Tudo vem a seu tempo, Fredrik sabe colocar a "semente" de forma certa para nos deixar saber que há algo por detrás daquelas afirmações, mas que ainda não é tempo de sabermos exactamente o que é - e depois revela tudo no ritmo certo, fazendo-nos sentir que este é um livro cheio de surpresas (nem sempre boas, mas ainda assim surpresas).

 

«Death is a strange thing. People live their whole lives as if it does not exist, and yet it's often one of the great motivations for living. Some of us, in time, become so conscious of it that we live harder, more obstinately, with more fury. Some need its constant presence to even be aware of its antithesis. Others become so preoccupied with it that they go into the waiting room long before it has announced its arrival. We fear it, yet most of us fear more than anything that it may take someone other than ourselves. For the greatest fear of death is always that it will pass us by. And leave us there alone.»

 

Em suma, recomendo muito este livro. Com uma história que tem tanto de bonita como de triste e que vos vai fazer deitar algumas lágrimas. Muito se tem falado do filme que vai ser lançado este ano, protagonizado por Tom Hanks e baseado neste livro, que se vai chamar A Man Called Otto. Mas na realidade já existe uma adaptação cinematográfica da história: um filme sueco (tal como o autor do livro) de 2015, com o mesmo nome, que podem ver na HBO Max.

 

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Quem já leu este livro? Só preciso que me digam duas coisas: o que acharam e qual o carro que conduzem (viram o que fiz? ).

05
Ago22

Sobre livros

Vera

Deixei de ler regularmente por um tempo e o livro que estou a ler não estava a ajudar muito. Ao início não estava a achar nada de mais. Agora começo a entrar um pouco mais na história. Estou a ler o A Man Called Ove. Tenho aproveitado para ler nas minhas horas de almoço (agora que tenho uma vida relativamente mais 9 to 6). É o meu momento do dia para relaxar. Ainda não estou a adorar o livro, mas gosto um pouco mais do que gostava ao início.

 

Há uns dias a Wook fez uma campanha de devolução de 10€ em cartão por cada 30€ de compras ou 5€ por cada 15€. Aproveitei o facto de receber o subsídio de férias para fazer os 30€ e comprei três livros novos. Todos em inglês - porque mais barato -, ainda estou à espera que cheguem dos fornecedores. Foi uma decisão difícil no meio de tantos livros que queria ler e comprar, mas acabei por me decidir pelo Verity, Normal People e The Final Girl Support Group. Vou aproveitar os 10€ no We Were Liars, que estou muito, muito curiosa por ler.

 

Isto tudo para dizer que a minha faceta de leitora ficou com o pito aos saltos depois de gastar dinheiro. Porque é que fico mais entusiasmada com leitura ao comprar livros novos? Aqui o ênfase é no comprar, não é nos livros novos... Se é que isto faz sentido.

 

Ah, e para ajudar à festa já nem sequer tenho espaço neste quarto para mais livros. Estou a contemplar comprar uma daquelas caixas de secretária que por aí andam na moda, sabem? Ainda estou para perceber se vão caber livros nisto. Se couberem não vão ser muitos... Mas deve dar para desenrascar.

 

Qual é o propósito deste post? Não sei. Nenhum. Apeteceu-me vir divagar sobre coisas desinteressantes - diga-se, eu comprar livros e ler nas horas de almoço. Falar de livros em si nunca é desinteressante.

 

Para acabar isto da melhor maneira: falem-me do livro que estão a ler. Qual é, se estão a gostar...

27
Mai22

LIVROS: In Five Years, Rebecca Serle

Uma história de amizade inesperada

Vera

Depois de ler A Little Life, e de uma pequena pausa involuntária na leitura por coisas da vida, decidi que precisava de uma leitura mais leve e descontraída. Por isso, depois de passar os olhos pela minha lista de livros para ler, acabei por escolher In Five Years.

 

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A nossa protagonista, Dannie, é uma daquelas pessoas que gostam de ter a vida planeada e saber com o que podem contar, e é por isso que, quando numa entrevista de emprego a questionam sobre onde se vê dali a cinco anos, ela sabe exactamente como espera que a sua vida seja: casada com o seu actual namorado David, bem-sucedida na sua carreira e a viver numa casa com que os dois sempre sonharam. Nessa mesma noite, o sono transporta-a para Dezembro de 2025: exactamente cinco anos depois - onde Dannie se vê num apartamento numa zona de Nova Iorque com que nunca sonhou, com um homem desconhecido e um anel de noivado na sua mão bastante diferente do que conhece.

 

Achei que a premissa me prometia uma leitura leve, mas este livro na realidade não é nada do que parece - e digo isto num bom sentido. Aliás, não foi uma leitura tão leve quanto esperava e foi uma história mais triste do que qualquer um espera ao ler a sinopse. Nem sequer considero que tenha sido um romance - não foi, de facto. A sinopse engana um pouco, mas neste caso acho que era necessário fazê-lo para surpreender com um enredo que nos fala muito mais de amizade do que de amor.

 

«I've always been waiting, haven't I? For tragedy to show up once again on my doorstep. Evil that blindsides. And what is [...] if not that?»

 

Ao início estava a achar tudo um pouco cliché e a escrita não me apelou, mas depois começou a ficar mais interessante. Já li que muitas pessoas ficaram surpreendidas pelos plot twists no livro, mas eu acabei por adivinhar um pouco o que poderia estar para acontecer - a minha ideia era ainda mais drástica, mas metade dela foi exactamente o que aconteceu. Confesso que este livro tocou num tema que me é particularmente próximo e com o qual evito ao máximo lidar, e acho que se soubesse que ia incluí-lo, provavelmente não o teria lido.

 

Gostei da história, foi uma história bonita e triste ao mesmo tempo, mas não consigo considerar que seja propriamente uma obra prima. A leitura foi prazerosa, mas as personagens pareceram-me um pouco unidimensionais, sem grande profundidade e construção, e achei que a autora de um modo geral contou mais do que mostrou. Não achei a escrita nada de mais; acho que a melhor forma de descrever este livro é que é um livro com uma história pesada contada com uma escrita leve. Parte de mim sente que, se era para ser levada a isto, podia ter-me feito sentir mais - mas acho que também não há mal em não tê-lo feito.

 

«He is calm and collected, and I hate him, I want to ram him into the wall. I want to scream at him. I need someone to blame, someone to be responsible for all of this. Because who is? Fate? Is the hellscape we've found ourselves in the work of some form of divine intervention? What kind of monster has decided that this is the ending we deserve?»

 

Se é memorável? Acho que não muito. Mas vale a pena a leitura, sendo um livro que se lê bastante rápido. Li em inglês e acho que é daqueles que qualquer pessoa que não domine tanto a língua pode avançar para a leitura, sem grandes medos. É uma história bonita e no final deixa-nos com uma reflexão sobre o quanto podemos nós controlar da nossa vida - spoiler: absolutamente nada -, até mesmo quando sabemos aparentemente aquilo em que ela se vai tornar. Se sou uma Dannie na vida e se vou deixar de acreditar que consigo controlar o que o destino me reserva? Sim à primeira parte, não à segunda... Boas leituras!

 

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Quem conhece esta história? Partilhem as vossas opiniões!

11
Mai22

LIVROS: A Little Life, Hanya Yanagihara

Uma vida de sofrimento em 720 páginas, e reflexões sobre a emoção nos homens e sobre psicologia

Vera

Bem... Será difícil conseguir alguma vez descrever adequadamente a experiência de ler este livro. Estou um pouco sem palavras, não por não saber o que dizer, mas por ter tanto para dizer que nem sei como articular tudo isso. Bom, talvez também por não saber o que dizer, já que este é daqueles livros que nos fazem, acima de tudo, sentir - sentir tanto que é impossível passar para palavras o que sentimos. Recostem-se à cadeira ou sofá, que sobre este livro eu tenho muito, tanto a dizer... Esta review vai ser um pouco diferente do costume, porque gostava de reflectir sobre algumas questões pelo meio e não tanto falar apenas da obra em si.

 

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A Little Life é um título bastante adequado à história, já que o livro é, em si, uma pequena vida - em 720 páginas mostra-nos a vida de quatro amigos, centrando-se acima de tudo num deles: Jude, conhecendo-o como o resultado de um passado extremamente traumático. Não me perguntem sobre o que é o livro, não há resposta linear: o livro é sobre tudo, não é sobre nada em específico, é efectivamente uma pequena vida a passar com o tempo e com as páginas. É "só" isso, se não fosse ser muito mais que isso - é um livro tão cru, tão autêntico, tão pesado, tão cheio de dor, tão digno de dar voltas ao estômago. Num comentário que deixei num dos meus updates na leitura deste livro no Goodreads, disse que este livro era um constante "acho que cheguei à pior parte, só pode melhorar a partir daqui..." - sem nunca chegar a melhorar. De alguma forma o livro conseguiu sempre superar aquilo que eu achava que era o pior. Conseguiu piorar o que já era pior, e piorar ainda mais, e piorar mais um pouco. Foi uma história dolorosa. E é bastante gráfico em certas partes, por isso não é um livro que se recomende a toda a gente.

 

But what was happiness but an extravagance, an impossible state to maintain, partly because it was so difficult to articulate? He couldn't remember being a child and being able to define happiness: there was only misery, or fear, and the absence of misery or fear, and the latter state was all he has needed or wanted.

 

O livro está muito bem escrito. Estava com medo por ser tão longo, mas conseguiu cativar-me em quase toda a história; a escrita em si é bastante bonita. Está escrito na terceira pessoa e acho incrível como ainda assim consegue fazer-nos sentir tanto do que as personagens estão a sentir. Mais ainda depois de ter lido uma entrevista de 2015 com a autora que me fez pensar na questão deste livro se centrar num grupo de homens, já que Hanya acha que eles têm um vocabulário emocional mais pequeno que as mulheres, e devo dizer que concordei bastante com o ponto de vista dela. Deixo aqui o excerto do que ela disse sobre esta questão:

 

But I do think that men, almost uniformly, no matter their race or cultural affiliations or religion or sexuality, are equipped with a far more limited emotional toolbox. Not endemically, perhaps — but there’s no society that I know of that encourages men to put words to the sort of feelings — much less encourages their expression of those feelings — that women get to take for granted. Maybe this is changing with younger men, but I sometimes listen to my male friends talk, and can understand that what they’re trying to communicate is fear, or shame, or vulnerability — even as I find it striking that they’re not even able to name those emotions, never mind discuss their specificities; they talk in contours, but not in depth. But in order to name emotions, you have to be taught to name them. (...) In A Little Life, one of the things I most enjoyed exploring is how these men’s friendships, while close by anyone’s definition, are also built upon a mutual desire to not truly know too much. Again, I’m not saying that’s a bad or good thing — one needn’t confess everything to a friend to be known by him — but I do think that a friendship between two women (once again, for better or worse) is yoked by shared confessions.

 

Não tinha pensado tão a fundo neste ponto mas lembro-me de, num momento ou outro a meio da leitura, ter pensado superficialmente no quão bem me estava a ser expressado um sentimento de um ponto de vista de uma personagem masculina (e quão estranho isso era) - sei que pode soar parvo, mas isto que ela descreve eu sinto muito na vida real. E mesmo assim não posso deixar de concordar que simultaneamente me pareceu uma dinâmica muito masculina na perspectiva de que efectivamente estes homens não sabem quase nada sobre a vida uns dos outros. Se pudesse colocava tudo o que ela disse aqui, mas este post já vai suficientemente longo (com tanto ainda por dizer), pelo que deixo o convite para lerem a entrevista na íntegra porque vale a pena.

 

Não vou dizer que o livro é 100% perfeito, achei que se foi tornando um pouco repetitivo e talvez isso tenha surtido um efeito contrário ao que era suposto. Comecei a sentir uma certa dessensibilização: às tantas a história estava a expor-me tanto a situações dolorosas e traumáticas que eu comecei a deixar de sentir tanta empatia pela personagem e pelas suas dores, e comecei a pensar apenas: ok, já percebemos que é mesmo muito mau e que estás a sofrer mesmo muito, e que precisas de fazer mesmo isto vezes sem conta para te sentires melhor. Não me desapareceu a empatia por completo, continuou a ser uma leitura dolorosa e esta dessensibilização meio que ia e vinha; pelo que num momento estava cansada de ler sempre a mesma fórmula de sofrimento, mas no outro já estava encostada a um canto a chorar e a querer deixar este livro no congelador, como o Joey em Friends, porque estava a ser demasiado para aguentar.

 

Outro aspecto positivo é que achei este livro muito bem construído de um ponto de vista psicológico. A pessoa em que Jude se tornou após um passado tão doloroso, tão cheio de trauma, é muito realista, atrevo-me a dizer que é uma das personagens mais bem construídas com base no abuso que viveu. No entanto, achei que houve algum exagero no que toca à vida dele. Se calhar falo de um lugar de imenso privilégio, mas é possível que uma pessoa tenha tanto, tanto azar? Em tudo? Umas coisas seguidas às outras? Sei que sermos criados e educados em determinado ambiente não dá propriamente azo a que existam oportunidades de crescimento em ambientes melhores (apesar de isso até ter acontecido), mas custa-me um pouco acreditar que de sítio para sítio exista sempre um monstro semelhante ao anterior. Da mesma forma, não consegui compreender por vezes a inacção por parte de outras personagens; entendo o quão complicado seja agir e ajudar, mas quando se passa uma vida inteira a ver alguém passar e experienciar pelo mesmo, não é natural que exista eventualmente um ponto de "explosão", um ponto de viragem, um limite da tolerância à frustração? Neste livro pareceu não existir muito disso, o que acho um pouco estranho para pessoas que têm tanto amor e preocupação por alguém.

 

(...) he was worried because to be alive was to worry. Life was scary; it was unknowable. (...) Life would happen to him, and he would have to try to answer it, just like the rest of them. They all (...) sought comfort, something that was theirs alone, something to hold off the terrifying largeness, the impossibility, of the world, of the relentlessness of its minutes, its hours, its days.

 

Agora, infelizmente, tenho de dizer que a minha opinião acerca deste livro decaiu um bocadinho depois de ler a entrevista que referi anteriormente. Uma coisa que me deixou, em certos momentos, frustrada na história foi perceber que uma personagem que precisava tanto de ajuda profissional, nunca a conseguiu. Nunca conseguiu viver dias melhores porque nunca teve a ajuda para isso. E eu achava que esta era uma posição escolhida pela própria personagem - e relevava a minha opinião e compreendia essa escolha, porque nem toda a gente se sente confortável necessariamente para ter o acompanhamento de um psicólogo e/ou psiquiatra, ou nem toda a gente acredita ou espera que isso ajude de facto. E está tudo bem com isso.

 

Mas depois li a entrevista e percebi que esta posição vem da própria autora. E ler algumas das linhas que ela referiu deixou-me um tanto ou quanto confusa e um pouco revoltada com a posição que defende:

 

As for the limits of therapy: I can’t speak to them, only that therapy, like any medical treatment, is finite in its ability to save and correct. I think of psychology the way I think of religion: a school of belief or thought that offers many, many people solace and answers; an invention that defines the way we view our fellow man and how we create social infrastructure; one that has inspired some of our greatest works of art and philosophy. But I don’t believe in it — talk therapy, I should specify — myself. One of the things that makes me most suspicious about the field is its insistence that life is always the answer. Every other medical specialty devoted to the care of the seriously ill recognizes that at some point, the doctor’s job is to help the patient die; that there are points at which death is preferable to life (that doesn’t mean every doctor will help you get there, of course. But almost every doctor of the critically sick understands the patient’s right to refuse treatment, to choose death over life). But psychology, and psychiatry, insists that life is the meaning of life, so to speak; that if one can’t be repaired, one can at least find a way to stay alive, to keep growing older. (...) But I’m not convinced. However: maybe there is in fact a therapist or psychiatrist out there, who thinks that life is, for some people, simply too difficult to keep pursuing; who will give a suicidal patient permission, as it were, to die.

 

Embora concorde que existam casos que possam não ter propriamente nenhuma perspectiva de recuperação - embora também acredite que nesses mesmos casos a terapia pode ter, em si mesma, efeitos paliativos -, equiparar uma ciência validada por estudos rigorosos a uma simples crença e dizer basicamente que psicologia é uma treta já é grave por si só; mas mais grave se tornou a autora proferir as últimas palavras e afirmar que espera que exista algures um terapeuta ou psicólogo que dê permissão a um paciente para se suicidar. Não achem que a minha opinião é enviesada por ser formada na área; tenho falado muito nos últimos tempos com uma amiga do curso sobre certos elementos hipócritas da Psicologia e como muitas vezes tenta empurrar a pessoa numa direcção que nem sempre tem de ser a mais certa, só porque é a mais socialmente aceitável.

 

Mas acho que para argumento basta o facto de Psicologia ser uma ciência, repito, C-I-Ê-N-C-I-A, e não uma doutrina que alguém resolveu inventar simplesmente porque sim. Isto é o mesmo que dizer que a Medicina é um monte de balelas que não resultam com ninguém. Não só não consigo concordar com a visão da autora como acho grave que por detrás de uma história seja isto que ela esteja a tentar passar - que não vale a pena procurar ajuda profissional porque a psicologia é uma crença e não resulta, e se uma pessoa está para lá de remédio e não acredita nisso, então (segundo o que ela diz) mais vale só morrer e pronto. No mínimo, acho que se deve sempre tentar.

 

Apesar de tudo isto, este livro é uma grande obra de arte escrita, foi não um, mas vários socos no estômago e é um livro que vai ficar comigo para sempre. Volto a dizer, não é um livro que se recomende a toda a gente, muitas vezes tive de pousá-lo e parar de ler porque a mágoa estava a tornar-se insuportável. E apesar de achar que a vida da personagem foi um pouco exagerada, não duvido que existam muitas, tantas, demasiadas pessoas como ela pelo mundo... E isso consegue tornar tudo ainda mais sôfrego.

 

Se acharem que aguentam um livro destes, vão com força. A sua leitura vale muito, muito a pena. É um dos livros mais bonitos que já li, da maneira mais triste que já experienciei.

 

(...) all along he had been waiting for some sort of punishment for his arrogance, for thinking he could have what everyone else has, and here--at last--it was. This is what you get, said the voice inside his head. This is what you get for pretending to be someone you know you're not, for thinking you're as good as other people.

 

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Opiniões sobre este livro? E outra coisa: gostam mais deste tipo de publicação, com mais pesquisa e reflexão, ou é melhor limitar-me à minha opinião do que consumi, sem mais? Acho que este post ficou super longo, mas senti que depois de ler a entrevista precisava de falar de outros aspectos que lá foram mencionados.

27
Mar22

LIVROS: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, J.K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany

Vera

Senti falta do universo Harry Potter, em verdadeiro espírito de o-terceiro-filme-dos-Monstros-Fantásticos-está-quase-aí, e resolvi ler este livro, cuja história ainda não conhecia.

 

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Harry Potter e a Criança Amaldiçoada está escrito no formato de peça de teatro, já que existe de facto a peça de teatro homónima, tendo surgido nos palcos pela primeira vez em Julho de 2016. Isto faz com que a sua leitura seja extremamente fácil e rápida.

 

Esta história gira em torno do filho de Harry Potter, aquele que conhecemos no epílogo dos famosos livros e filmes: Albus Severus Potter, uma criança que se sente diferente das outras, deslocado do mundo que o rodeia e mesmo dentro da própria família, mostrando-nos o peso que pode ter numa criança o facto de esta ser filha d'O Rapaz que Sobreviveu. Em certo momento da história, Albus toma uma decisão que vai mudar todo o passado, o presente e o futuro, de formas drásticas. É assim que acompanhamos a sua aventura de navegar num novo mundo, em novos cenários e situações, tentando fazer o que acha melhor em cada momento.

 

O que dizer deste livro? Acho que é uma obra completamente diferente daquilo a que estamos habituados neste universo, pelo que não acho que seja favorável avançar para esta leitura com uma expectativa de encontrar algo semelhante ao que já foi lido e/ou visto. Não olho para este livro como descrevendo um mundo totalmente mágico - aquele a que já estamos habituados -, é um livro mais maduro que se propõe mais a mostrar o lado humano - conflitos, emoções, relacionamentos - do que propriamente o lado mágico. O formato também ajuda a isso, já que não existe nenhum narrador, existe apenas o diálogo entre personagens e as breves descrições de cenários, emoções ou acções.

 

Não sei bem do que estava à espera; gostei da história mas em certo modo ficou aquém das expectativas. Acho que a minha leitura acabou por ser influenciada pelo facto de ter crescido com o Harry, o Ron e a Hermione, e não com os seus filhos. Foi giro ler sobre eles mas não consegui criar grande ligação com essas personagens. Ao início achava o Albus um pouco irritante, até... Saí desta leitura sem criar grande afinidade com as personagens mais novas (até gostei do Scorpius, mas no fim do dia também pouco me diz).

 

Achei que talvez tenha também começado a ser um pouco repetitivo. Afinal a fórmula geral dos acontecimentos-chave foi sempre a mesma... E aconteceu uma, e outra, e outra vez. Apesar de ter dado resultado a um contraste particularmente interessante. Não sei também se gostei assim tanto dos novos dados que trouxeram a este universo, nomeadamente no que toca ao fruto daquele "relacionamento" (quem já leu vai perceber certamente do que falo). Achei que veio meio do nada, meio sem explicações... meio só porque precisavam de algo que parecesse interessante para contar na história.

 

Apesar de tudo isto, bom, é Harry Potter e tudo o que é Harry Potter eu vou gostar. Agora queria muito, muito poder ver esta peça ao vivo! Porque é que temos de viver encostadinhos a este canto à beira-mar plantado? 

 

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29 ∷ Miúda do interior com alma de lisboeta ∷ Digital marketeer ∷ Overthinker a tempo inteiro ∷ Sempre a saltar de livros para séries para jogos nas horas vagas

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